Trânsito caótico e barulho infernal

Nem Pavlov explica

A maioria dos indivíduos, quando não está condicionada (fiscalizada e punida), continua sempre desrespeitando o próximo.

Em Salvador, uma lei absurda obriga os proprietários de imóveis a cuidar e manter a calçada em frente, que obviamente é uma área pública. Carros estacionam em cima do passeio, tendo o proprietário que arcar com os custos da destruição. Devido ao crescimento desordenado da cidade, estaciona-se em qualquer lugar. Os engarrafamentos provocam estresse e o impulso de tocar a buzina de maneira frenética, ainda que se esteja numa região de hospitais e clínicas, onde o silêncio (supõe-se) deva ser respeitado. Para piorar o quadro, em ruas como a Padre Feijó, de tempos em tempos, aparece uma kombi com alto-falantes, anunciando em altos decibéis a venda de algum produto. Esta área é chamada de “nobre”. Se formos ao subúrbio, o caos se instala.

Por que não uma lei antibarulho que funcione? Uma lei que mande passar um rolo compressor nos equipamentos de som dos carros – aqueles que ocupam os porta-malas, acima dos decibéis tolerados pelo seres vivos, aqui incluídos, humanos e jegues. Por que não fiscalizar e punir também essas oficinas especializadas em caixas de som para carros, a fonte primária de toda a poluição sonora? A Sucom tem se esforçado ultimamente realizando algumas blitzes. Contudo, são medidas insuficientes e inconstantes.

Será que algum prefeito (de Salvador a Camaçari) gostaria de ter um alto-falante num poste ao lado de sua casa, com uma rádio comunitária, ou um carro de um vizinho com una música perturbadora a 110 decibéis? Será que o governador gostaria ter um desses alto-falantes, dia e noite, transmitindo sua programação direcionada ao Palacio de Ondina? Será que os vereadores e deputados também gostariam?

Porque exigir de uma boate isolamento acústico e não de uma igreja? Que falta de consideração com os cidadãos! Que invasão da privacidade é essa? Que perturbação da paz! Ninguém deve ser obrigado a escutar uma programação ou som que não seja de seu agrado ou escolha. O problema do barulho é tão grave como o do álcool e do cigarro. A eleição vem aí e com ela as kombis que anunciam os candidatos em altos decibéis. Não vote em barulhentos!

É fundamental dar um basta neste problema de saúde pública, é necessária uma lei estadual, que una a Polícia e o Detran, para, de uma maneira efetiva e constante, acabar com este flagelo. Uma lei sumária que seja efetivamente cumprida, sem espetáculos exclusivos para televisão. Com blitz: parou, conferiu o som e o tamanho das caixas. Multa e tira o ruído de circulação.

Indisciplina social combina com problemas de educação e cultura. Salvador é a capital brasileira do barulho. Estacionar em local proibido ou emitir sons ensurdecedores é uma resposta incondicionada. Não estacionar novamente no mesmo lugar depois de ser multado, ou o personagem barulhento ter o equipamento de som apreendido, é uma resposta condicionada.

Imaginar o guarda multando, ou um caminhão guincho levando o veículo, ou o rolo compressor passando por cima de potentes caixas de som, se converte finalmente em estímulo condicionado. Segundo Pavlov, “existe o reforço que é o fortalecimento do estímulo incondicionado com o condicionado. O reforço é um acontecimento que incrementa a probabilidade de que ocorra determinada resposta. (…) a complexidade do cérebro humano facilita um segundo sistema de sinais que é a linguagem verbal ou simbólica”.

O que não explica que alguém, diante de uma placa de “proibido estacionar”, ou “proibido som nesta área”, se comporte como o ser irracional do experimento pavloviano.

Osmani Simanca
Jornal A Tarde
01/03/2010

Trânsito caótico e barulho infernal em frente ao Hospital das Clínicas UFBA, Salvador, Bahia

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>Trânsito caótico e barulho infernal

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Nem Pavlov explica

A maioria dos indivíduos, quando não está condicionada (fiscalizada e punida), continua sempre desrespeitando o próximo.

Em Salvador, uma lei absurda obriga os proprietários de imóveis a cuidar e manter a calçada em frente, que obviamente é uma área pública. Carros estacionam em cima do passeio, tendo o proprietário que arcar com os custos da destruição. Devido ao crescimento desordenado da cidade, estaciona-se em qualquer lugar. Os engarrafamentos provocam estresse e o impulso de tocar a buzina de maneira frenética, ainda que se esteja numa região de hospitais e clínicas, onde o silêncio (supõe-se) deva ser respeitado. Para piorar o quadro, em ruas como a Padre Feijó, de tempos em tempos, aparece uma kombi com alto-falantes, anunciando em altos decibéis a venda de algum produto. Esta área é chamada de “nobre”. Se formos ao subúrbio, o caos se instala.

Por que não uma lei antibarulho que funcione? Uma lei que mande passar um rolo compressor nos equipamentos de som dos carros – aqueles que ocupam os porta-malas, acima dos decibéis tolerados pelo seres vivos, aqui incluídos, humanos e jegues. Por que não fiscalizar e punir também essas oficinas especializadas em caixas de som para carros, a fonte primária de toda a poluição sonora? A Sucom tem se esforçado ultimamente realizando algumas blitzes. Contudo, são medidas insuficientes e inconstantes.

Será que algum prefeito (de Salvador a Camaçari) gostaria de ter um alto-falante num poste ao lado de sua casa, com uma rádio comunitária, ou um carro de um vizinho com una música perturbadora a 110 decibéis? Será que o governador gostaria ter um desses alto-falantes, dia e noite, transmitindo sua programação direcionada ao Palacio de Ondina? Será que os vereadores e deputados também gostariam?

Porque exigir de uma boate isolamento acústico e não de uma igreja? Que falta de consideração com os cidadãos! Que invasão da privacidade é essa? Que perturbação da paz! Ninguém deve ser obrigado a escutar uma programação ou som que não seja de seu agrado ou escolha. O problema do barulho é tão grave como o do álcool e do cigarro. A eleição vem aí e com ela as kombis que anunciam os candidatos em altos decibéis. Não vote em barulhentos!

É fundamental dar um basta neste problema de saúde pública, é necessária uma lei estadual, que una a Polícia e o Detran, para, de uma maneira efetiva e constante, acabar com este flagelo. Uma lei sumária que seja efetivamente cumprida, sem espetáculos exclusivos para televisão. Com blitz: parou, conferiu o som e o tamanho das caixas. Multa e tira o ruído de circulação.

Indisciplina social combina com problemas de educação e cultura. Salvador é a capital brasileira do barulho. Estacionar em local proibido ou emitir sons ensurdecedores é uma resposta incondicionada. Não estacionar novamente no mesmo lugar depois de ser multado, ou o personagem barulhento ter o equipamento de som apreendido, é uma resposta condicionada.

Imaginar o guarda multando, ou um caminhão guincho levando o veículo, ou o rolo compressor passando por cima de potentes caixas de som, se converte finalmente em estímulo condicionado. Segundo Pavlov, “existe o reforço que é o fortalecimento do estímulo incondicionado com o condicionado. O reforço é um acontecimento que incrementa a probabilidade de que ocorra determinada resposta. (…) a complexidade do cérebro humano facilita um segundo sistema de sinais que é a linguagem verbal ou simbólica”.

O que não explica que alguém, diante de uma placa de “proibido estacionar”, ou “proibido som nesta área”, se comporte como o ser irracional do experimento pavloviano.

Osmani Simanca
Jornal A Tarde
01/03/2010

Trânsito caótico e barulho infernal em frente ao Hospital das Clínicas UFBA, Salvador, Bahia