Millôr – Um certo farol do humor brasileiro

Por Cau Gomez

O Millôr não era a minha fonte de inspiração inicial quando comecei a fazer caricaturas. Eu era muito novo, e tinha nos traços e soluções gráficas referenciais os irmãos Caruso e Ziraldo. Mas foi na época do “quadrado do JB” , espaço ocupado pelo escritor e chargista do Jornal do Brasil, é que passei a observar e a acompanhar, quase que diariamente, as charges e análises debochadas do “ tal de Millôr Fernandes”, tão venerado e exaltado pelos meus ídolos cartunistas e chargistas.

Tive a sorte de ouvi-lo numa palestra durante o I Encontro Latino-Americano de Humor Brasil – Argentina, que teve a curadoria do Paulo Caruso, no Memorial da América Latina, em 1990.

Nesta ocasião, estava iniciando e amadurecendo as minhas buscas e pesquisas. Mostrava o meu portfolio nos intervalos da programação do evento e, coadjuvante bem sucedido, me animava a seguir exibindo meus desenhos e caricaturas, recém aprovados no clube dos novos caricaturistas.

Foi quando no meio de uma sessão de autógrafos, fui recomendado pela Ana Raquel, minha amiga e ilustradora, a mostrar meus trabalhos aos principais “atores” daquele Festival de Humor Gráfico, dentre eles, Jaguar, Loredano e os representantes argentinos, Sábat e Trimano. E ali estava, também, o nosso personagem principal, o Millôr – que observava atentamente os vários originais e impressos, até que ele me perguntou onde eu havia conseguido um “print” tão sofisticado e com tanta qualidade nas cores. Fiquei desconfiado, pois, em meio a tantos elogios, surgira alguém observador e atento às tecnologias de impressão. Ele prestara mais atenção e valorizara mais as cópias do que os meus originais.

Um tempo depois, já mais maduro, e premiado na edição do Salão Carioca de Humor – 2004,  fui participar de uma confraternização extra-oficial – só para a nata presente naquele festival de humor – na residência do casal Jaguar e Célia, em Itaipava.  Além dos ilustres convidados presentes, que eram humoristas, compositores, músicos, jornalistas, fotógrafos, publicitários e escritores, estavam lá grandes nomes do cartum, como o inglês Steve Bell, cartunista do The Guardian; António Antunes, do Expresso de Portugal; Angeli, Luís Fernando Veríssimo, Santiago, Ricky Goldwin, Alcy, Rubem Grilo, Chico e Paulo Caruso, Dálcio, Rodrigo Rosa e tantos outros das velha e nova safra.

Fomos todos visitar a exposição individual do nosso anfitrião, o Jaguar, montada em uma galeria aberta num grande espaço para arte da região serrana do Rio.

Em um determinado momento, fui novamente apresentado ao Millôr, e notei a baixa estatura e fragilidade daquele genial pensador. Conversamos algum tempo numa roda animada com outros convidados, a prosa era divertida e bem humorada. Fiquei impressionado com a capacidade de síntese e memória do Millôr.

Ele tinha um clarão no olhar, um brilho e intensidade no azul dos seus olhos, que pareciam um imenso farol. Brincalhão e ao mesmo tempo domador das palavras, iniciou uma análise sobre as características do meu cabelo estilo rasta e o fato de eu ser radicado em Salvador. Contou algumas curiosidades e detalhes sobre a história e o sentido das palavras rastafári e soteropolitano.

Confesso que, diante de tanta sabedoria, me vesti de aluno novamente, e fiquei a ouvir, rir e aprender.

Viva o Millôr!

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