Pedradas iranianas

EDITORIAL

Lapidação — ou morte por apedrejamento — é sentença dos tempos bíblicos. Jesus, um grande ativista dos direitos humanos, sustou a morte por esse modo de uma adúltera, segundo narram os Evangelhos. No Irã do século 21 depois de Cristo persistem execuções assim bárbaras. A teocracia dos aiatolás, presa ao fanatismo, resiste a humanizar-se.

O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43, mãe de dois filhos, ilustra bem a cultura e os métodos de líderes iranianos. Viúva, é acusada de relacionamento “ilícito” com dois homens, em um dos casos “estando casada”. Adúlteras são enforcadas ou enterradas até o busto, e sobre elas chovem pedras miúdas para morte lenta, atiradas por homens. A mulher já recebera 99 chicotadas.

O presidente Lula, que a princípio se negou a intervir para salvar a ré, cedeu, ao que parece, a conselho de sua candidata Dilma Rousseff, que na mediação entreviu dividendos eleitorais. Até aqui não há reação oficial do “irmão” Ahmadinejad, mas uma agência noticiosa conservadora, ligada à teocracia iraniana, julgou ingerência indevida a oferta de asilo à condenada, embora ressalve o estofo “emotivo” do presidente.

De qualquer modo, e sabe-se lá com que grau de sinceridade, a mediação tardia do Brasil reforça a solidariedade internacional. Os Estados Unidos, que temem a execução de cidadãos americanos considerados espias, logo a secundaram. Resta ver se o Irã, flexível antes a pedidos do Brasil, o atenderá desta vez. Se não, estaria criado um contencioso diplomático.

Em direitos humanos Lula tem agido de forma contraditória. Recusou uma palavra em favor dos presos políticos cubanos, insistiu em apoiar um governo discricionário e cruel, que ameaça incendiar de vez o Oriente Médio com um programa nuclear supostamente dirigido para a bomba. Contraria posições ocidentais, e até mesmo da Rússia. Agora, ao pedir por Ashtiani, mostra o lado humanitário. Por ora tem o mérito de forçar o Irã a divulgar o caso pela primeira vez.

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